Hoje, 18 de janeiro, assinalam-se 41 anos da morte de José Carlos Ary dos Santos, um dos mais emblemáticos poetas portugueses do século XX. Figura incontornável da literatura e da música portuguesa, Ary dos Santos foi um autor movido na luta pela liberdade, cuja poesia deu voz às lutas e esperanças de um povo.
A Voz Poética da Revolução
Nascido em Lisboa a 7 de dezembro de 1937, Ary dos Santos revelou desde cedo uma sensibilidade literária incomum. Publicou o seu primeiro poema com apenas 14 anos, mas foi na maturidade que se afirmou como um dos mais importantes poetas portugueses. A sua poesia destacou-se pela força das palavras, pela paixão com que abordava temas como o amor, a liberdade, a justiça social e a resistência ao regime opressivo do Estado Novo.
O seu envolvimento político intensificou-se nos anos 60, quando se filiou no Partido Comunista Português (PCP), tornando-se uma voz ativa contra a ditadura. A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, foi um momento marcante na sua vida, e muitos dos seus poemas e canções tornaram-se hinos de liberdade. Poemas como “As Portas Que Abril Abriu” encapsulam o espírito revolucionário da época.
Um Poeta Que Cantou Portugal
Ary dos Santos foi também um dos maiores letristas da música portuguesa. Colaborou com diversos músicos e cantores, emprestando as suas palavras a vozes como Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Fernando Tordo, Simone de Oliveira e Paulo de Carvalho.
Foi autor de letras icónicas, como “Desfolhada” (1969), interpretada por Simone de Oliveira, “Tourada” (1973), interpretada por Fernando Tordo, e “E Depois do Adeus” (1974), cantada por Paulo de Carvalho, que se tornou uma das senhas do início da Revolução dos Cravos. A sua capacidade de transformar poesia em música fez dele uma referência incontornável na música de intervenção e no fado.
Entre os seus versos, Ary dos Santos soube celebrar o povo português, as suas tradições e o seu espírito combativo. Obras como “Lisboa, Menina e Moça”, imortalizada por Carlos do Carmo, continuam a ecoar nas ruas de Lisboa e na memória coletiva.
Entre a Glória e a Tragédia
A vida de Ary dos Santos foi marcada por intensas paixões e excessos. A sua personalidade irreverente, refletida nos seus versos, também se manifestava no seu quotidiano. Viveu intensamente, enfrentando as contradições da fama, da boémia e da militância política.
Morreu prematuramente a 18 de janeiro de 1984, com apenas 46 anos, vítima de complicações hepáticas. A sua morte foi sentida como uma perda irreparável para a cultura portuguesa, mas a sua obra permanece viva, continuando a inspirar as novas gerações.
Um Legado Imortal
Passadas mais de quatro décadas, a poesia de José Carlos Ary dos Santos mantém-se atual e necessária. A sua escrita é um testemunho da coragem de um homem que ousou desafiar o silêncio e dar voz à esperança. A sua obra continua a ser estudada, declamada e cantada, recordando-nos que a poesia pode ser uma arma poderosa na construção de um mundo mais justo e livre.
Hoje, ao recordar Ary dos Santos, recordamos não só o poeta, mas também o homem que fez da palavra um instrumento de transformação. A sua voz ressoa como um eco intemporal de liberdade e paixão, porque, como ele próprio escreveu:
“Que ninguém se engane, só se consegue a liberdade lutando pela liberdade!”
José Carlos Ary dos Santos permanece, assim, como um símbolo eterno da poesia que transforma, da música que mobiliza e do sonho que persiste.